HistóriaJogos históricos

A virada de Lima: como Gabigol decidiu a Libertadores 2019 nos acréscimos

Contexto histórico

Antes de 2019, o Flamengo carregava um peso que todo torcedor conhecia de cor: 38 anos sem conquistar a Copa Libertadores. O único título continental do clube havia sido em 23 de novembro de 1981, quando o Rubro-Negro superou o Cobreloa em Montevidéu e entrou para a história do futebol sul-americano. Nas décadas seguintes, o troféu ficou distante. Gerações de jogadores vieram e foram sem conseguir repetir aquela façanha.

A chegada de Jorge Jesus ao comando técnico, em meados de 2019, mudou a identidade do time. O treinador português implantou um estilo de jogo intenso, com pressão alta, trocas de passes rápidas e um elenco que começou a funcionar como bloco coeso. O Flamengo daquele ano tinha Gabigol, Arrascaeta, Everton Ribeiro, Bruno Henrique e Filipe Luís entre os titulares — um conjunto que combinava criatividade, velocidade e experiência continental.

A 60ª edição da Copa Libertadores trouxe também uma novidade histórica: pela primeira vez em quase seis décadas de competição, a final seria decidida em jogo único, em campo neutro. A CONMEBOL escolheu o Estádio Monumental de Lima, no Peru, como palco. Do outro lado estava o River Plate, um dos clubes mais vitoriosos da Argentina, campeão da própria Libertadores em 2018 e acostumado a grandes decisões.

A história

A campanha do Flamengo até Lima foi construída com drama e superação. Nas oitavas de final, o time precisou dos pênaltis para eliminar o Emelec. Nas quartas, eliminou o Internacional em confronto direto entre brasileiros. Na semifinal, o Maracanã foi palco de uma das noites mais memoráveis da temporada: uma goleada de 5 a 0 sobre o Grêmio na partida de volta, que selou a vaga na decisão com autoridade.

Em 23 de novembro de 2019, Lima recebeu 78.573 espectadores no Monumental. O jogo começou mal para o Flamengo. Aos 14 minutos do primeiro tempo, o colombiano Rafael Santos Borré abriu o placar para o River Plate, e a vantagem argentina se manteve por toda a primeira etapa. O Flamengo não conseguiu sequer finalizar ao gol de Franco Armani durante os 45 minutos iniciais. Era um quadro difícil, e o peso dos 38 anos de espera voltou a pesar sobre os ombros da torcida.

O segundo tempo avançou sem que o Flamengo conseguisse encontrar o empate. O River administrava o placar com disciplina, e os minutos passavam. Com a partida chegando aos acréscimos, o título parecia escorrer pelos dedos do time de Jorge Jesus.

Aos 43 minutos do segundo tempo, Arrascaeta recebeu a bola e cruzou rasteiro pela área. Gabigol apareceu no momento certo, encostou e estufou a rede: 1 a 1. O Monumental explodiu em vermelho e preto. A torcida flamenguista, que havia acompanhado quase 90 minutos de angústia, encontrou alento naquele gol.

Mas o mais surpreendente ainda estava por vir. Três minutos depois, aos 46, o zagueiro Pinola errou na saída de bola, e Gabigol não perdoou. O atacante pegou a sobra, bateu cruzado e marcou o segundo: 2 a 1. Em menos de três minutos, o Flamengo havia saído de perdedor para bicampeão continental. O árbitro apitou o encerramento instantes depois, e a virada estava consumada.

Jorge Jesus se tornou o segundo técnico europeu a conquistar a Libertadores e o primeiro português a levar o troféu. Para o clube, era o encerramento oficial de um jejum que havia durado exatamente 38 anos — e a data coincidiu: o primeiro título havia sido conquistado também em 23 de novembro, em 1981.

Por que esse capítulo marcou o Flamengo

A virada de Lima não foi apenas uma vitória em campo. Foi a confirmação de um ciclo que havia transformado o Flamengo em protagonista do futebol sul-americano após quase quatro décadas às margens do título máximo do continente. O clube havia investido em um elenco competitivo, apostado em um treinador de fora do Brasil e construído uma identidade de jogo reconhecível. Tudo isso confluiu em três minutos de acréscimos no Peru.

O contexto do jejum amplificava cada momento daquela decisão. Torcedores que nunca haviam visto o Flamengo campeão da Libertadores acompanharam a virada em tempo real. A geração que viveu 1981 pôde revisitar aquela emoção. O título uniu gerações de um clube com a maior torcida do Brasil.

A vitória sobre o River Plate também tinha peso simbólico adicional. O adversário era o campeão em exercício e chegou a Lima como um dos favoritos. Superar esse obstáculo — e fazê-lo da forma como o Flamengo fez, nos acréscimos, depois de 43 minutos em desvantagem — tornou o resultado ainda mais marcante.

Para Jorge Jesus, a Libertadores de 2019 representou o auge de sua passagem pelo clube. O treinador português chegou com ceticismo de parte da imprensa e da torcida, e deixou Lima como um dos técnicos mais celebrados da história recente do Rubro-Negro.

O legado

A conquista de 2019 recolocou o Flamengo no mapa do futebol continental de forma definitiva. O título abriu um ciclo de ambições renovadas: o clube voltou a se enxergar como candidato natural à Libertadores, e essa mentalidade se traduziu em novas campanhas nas edições seguintes.

Gabigol, com dois gols na final, entrou definitivamente para o panteão dos ídolos do clube. Seu nome ficou associado àqueles três minutos em Lima de uma maneira que poucos jogadores conseguem — ser o autor da virada que encerrou um jejum de 38 anos, em uma final histórica, contra um adversário de peso.

A final de Lima também deixou uma marca na história da própria Libertadores. Foi a estreia do formato de jogo único em campo neutro, que a CONMEBOL passou a adotar nas edições seguintes. O Estádio Monumental entrou para o imaginário do futebol sul-americano como o lugar onde o Flamengo voltou ao topo do continente.

Trinta e oito anos de espera terminaram em menos de três minutos. Esse é o resumo mais honesto do que aconteceu em Lima. E é também o motivo pelo qual aquela noite de novembro de 2019 nunca vai sair da memória de quem acompanhou.

Fontes consultadas

Por Flaagora

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *